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운명 — por que os doramas não conseguem largar essas duas sílabas

운명

Quem assiste a doramas coreanos logo percebe duas sílabas que aparecem com uma frequência fora do comum. É o que o protagonista murmura, baixinho, quando duas pessoas se cruzam pela terceira vez no mesmo beco e ficam sem palavras por um instante. 운명 (unmyeong) é a força sobre-humana e inevitável que age sobre os seres humanos e sobre tudo o que existe no mundo — ou ainda a vida e a condição que essa força já deixou determinadas. Ou seja: a palavra sempre chega com um pressuposto embutido, o de que “isto não fui eu que escolhi”. Quando a coincidência se repete duas vezes, as pessoas soltam a palavra rindo; quando se repete três, o riso some.

Em coreano, a temperatura natural dessa palavra é pesada. Ela não serve para uma coincidência qualquer: aponta para algo grande demais para a força de uma pessoa. Por isso, dita a sério numa conversa cotidiana, o ar da sala desce um grau. E é exatamente por causa desse peso que ela também funciona tão bem como piada. Encontrar de novo aquele amigo na loja de conveniência e dizer “이 정도면 운명 아니야?” (i jeongdomyeon unmyeong aniya?) — “com tanta coincidência assim, já é destino, né?” — é engraçado justamente porque uma palavra grave foi colocada de propósito num lugar leve. A piada funciona porque quem fala conhece o peso.

O sentido se divide em dois caminhos. Um é essa “força que deixa tudo determinado”. O outro é a situação que se desenha adiante. Quando alguém diz “이번 경기에 팀의 운명이 달렸다” (ibeon gyeonggie tim-ui unmyeong-i dallyeotda) — “o destino do time depende deste jogo” —, não se está falando de forças sobrenaturais, e sim da encruzilhada entre vencer e afundar. Esse segundo uso é muito mais comum no noticiário e nas salas de reunião. Vale decorar também os verbos que costumam andar junto com a palavra: 운명을 가르다 (unmyeong-eul gareuda), “dividir o destino”; 운명을 결정하다 (unmyeong-eul gyeoljeonghada), “determinar o destino”; 운명을 개척하다 (unmyeong-eul gaecheokhada), “abrir o próprio caminho”; 운명을 거역하다 (unmyeong-eul geoyeokhada), “contrariar o destino”; 운명을 같이하다 (unmyeong-eul gachihada), “partilhar o mesmo destino”; e 운명의 갈림길 (unmyeong-ui gallimgil), “a encruzilhada do destino”. Só com esses seis você já lê a maior parte das frases em que a palavra aparece.

Conferindo no dicionário do Instituto Nacional da Língua Coreana

O Dicionário Básico de Coreano, do Instituto Nacional da Língua Coreana, registra a palavra como substantivo e separa dois sentidos.

운명 「명사」

  1. 인간과 세상 모든 것에 영향을 미치는 초인적이고 필연적인 힘. 또는 그 힘에 의해 이미 정해진 목숨이나 상태. [en] fate; destiny — A superhuman and inevitable force that affects humans and all the things in the world; or the life or state predetermined by the force. [ja] うんめい【運命】 — 人間と世の中の全てに影響を及ぼす超人的で必然的な力。また、その力によって既に決まっている命や状態。 [es] destino, hado — Fuerza desconocida que, según algunos, obra irresistiblemente sobre los hombres y los sucesos en la tierra. O los acontecimientos o la vida que se consideran irremediables y no se pueden cambiar en razón de esta fuerza. [zh] 命运,宿命 — 给人类和世上所有东西带来影响的超然的力量;或指根据此力量已经定下来的命或状态。 — Instituto Nacional da Língua Coreana, Dicionário Básico de Coreano (krdict.korean.go.kr)

Em português: força sobre-humana e inevitável que influencia os seres humanos e tudo o que há no mundo; ou a vida e a condição já determinadas por essa força.

  1. 앞으로의 죽고 사는 것이나 흥하고 망하는 것에 관한 처지. [en] fate; destiny — Matters relating to life and death, or successes and failures in the future. [ja] うんめい【運命】 — これからの生死や興亡の成り行き。 [es] destino — Circunstancia de ser favorable o adversa, fatal o viva la supuesta manera de ocurrir los sucesos a alguien o a algo. [zh] 命运,宿命 — 生死或兴亡的处境。 — Instituto Nacional da Língua Coreana, Dicionário Básico de Coreano (krdict.korean.go.kr)

Em português: a situação futura no que diz respeito a viver ou morrer, prosperar ou ruir.

(O dicionário não traz definições em português. A título de referência, a palavra corresponderia a algo como destino ou sina — mas esta linha não é uma citação do dicionário, e sim uma tradução nossa.)

Abaixo estão cinco frases de uso real registradas no dicionário, transcritas tal como aparecem, com um comentário sobre o tipo de situação em que cada uma nasceria.

네. 어린 시절 그분이 제게 하신 한마디가 저의 운명을 가른 셈이죠. — Instituto Nacional da Língua Coreana, Dicionário Básico de Coreano (krdict.korean.go.kr)

Sim. No fundo, foi uma frase que ele me disse na infância que dividiu o meu destino em dois.

É uma frase típica de entrevista. Como 가르다 (gareuda) significa partir algo em dois, o que se diz é: sem aquela frase, eu estaria vivendo uma vida completamente diferente da atual. A forma polida e o -죠 dão o tom de quem está recordando.

대표 선출 문제는 단체의 운명을 결정하기 때문에 그렇게 간단한 문제가 아니다. — Instituto Nacional da Língua Coreana, Dicionário Básico de Coreano (krdict.korean.go.kr)

A escolha do representante não é uma questão simples, porque determina o destino da entidade.

Exemplo clássico do segundo sentido. O sujeito não é uma pessoa, e sim uma organização, e não há nada de sobrenatural aqui: fala-se de a instituição ir bem ou desmoronar daqui para a frente. É o tipo de frase que aparece intacta em atas de reunião e em reportagens.

운명의 갈림길. — Instituto Nacional da Língua Coreana, Dicionário Básico de Coreano (krdict.korean.go.kr)

A encruzilhada do destino.

Expressão cristalizada. Marca o ponto em que a escolha de um lado ou de outro muda completamente tudo o que vem depois. É também a construção preferida das transmissões esportivas e dos teasers de dorama.

나는 어떻게 해서든 내 운명을 스스로 개척해 나갈 거야. — Instituto Nacional da Língua Coreana, Dicionário Básico de Coreano (krdict.korean.go.kr)

Custe o que custar, eu mesmo vou abrir o meu destino.

Esta é importante porque aponta na direção oposta às anteriores. No instante em que se junta a 개척하다 (gaecheokhada), a palavra deixa de ser linguagem de resignação e vira linguagem de vontade. Ela reconhece o pressuposto de que existe algo já traçado, mas afirma a intenção de empurrar esse traçado adiante — é um dos usos mais destemidos que a palavra tem em coreano.

운명을 같이하다. — Instituto Nacional da Língua Coreana, Dicionário Básico de Coreano (krdict.korean.go.kr)

Partilhar o mesmo destino.

Quer dizer seguir junto até o fim. Usa-se para relações em que o resultado é dividido, dê certo ou dê errado: um casal, colegas de trabalho, o navio e seu capitão. O ponto central é que não significa “dar-se bem”, e sim compartilhar o desfecho.

Vendo numa conversa real

Situação: onze da noite, na mesa sob o guarda-sol em frente à loja de conveniência do bairro. É o terceiro encontro só nesta semana.

Jun-kyung: 야, 또 만났네. 이 정도면 운명 아니야? Ei, nos encontramos de novo. A essa altura já é destino, né?

Emily: 무슨 운명이야. 우리 집이 여기서 3분 거리인 거지. Que destino que nada. É que minha casa fica a três minutos daqui.

Jun-kyung: 하긴. 근데 너 한국 온 것도 좀 그렇잖아. 원래 일 년만 있으려고 했다며. Bom, é verdade. Mas você ter vindo para a Coreia também foi meio assim, não foi? Você disse que ia ficar só um ano.

Emily: 어. 그때 그 학원 등록한 게 내 운명을 갈랐지. 십오 년째 이러고 있잖아. É. Me matricular naquele curso de coreano partiu minha vida em duas. Quinze anos depois, ainda estou aqui.

Jun-kyung: 그럼 운명한테 고맙다고 해야겠네. Então acho que você deve um obrigado ao destino.

Emily: 고맙긴. 내가 개척한 거야, 이건. Obrigado uma ova. Isso aqui fui eu que construí.

Assim soa estranho

✗ (para um amigo ansioso às vésperas de uma cirurgia) 어쩌겠어, 그게 네 운명인가 봐. “Fazer o quê, deve ser o seu destino.” ✓ (para um amigo ansioso às vésperas de uma cirurgia) 많이 무섭지? 끝나고 바로 갈게. “Deve estar apavorado, né? Assim que acabar eu vou aí.” → A gramática está impecável, mas o lugar está errado. Como a palavra carrega o pressuposto de que “não dá para mudar com força humana”, dita diante de alguém que está sofrendo ela não chega como consolo, e sim como decreto de desistência. Na vida real, quem usa a palavra a sério costuma ser a própria pessoa envolvida, não quem está do lado.

✗ (trinta minutos depois do início de um primeiro encontro arranjado) 우리가 만난 건 운명인 것 같아요. “Acho que o nosso encontro foi obra do destino.” ✓ (trinta minutos depois do início de um primeiro encontro arranjado) 오늘 얘기 잘 통해서 좋네요. “Que bom que a nossa conversa fluiu tão bem hoje.” → O peso da palavra é transferido inteiro para a outra pessoa. Num lugar em que vocês ainda nem se conhecem, ela não chega como sinceridade, e sim como cobrança. É completamente diferente de dizer, rindo, “이 정도면 운명이지” (i jeongdomyeon unmyeong-iji) depois que a intimidade já existe.

Frases para usar em cada situação

1) Na sala de reunião, esperando o resultado de um contrato preparado por meses

이번 계약에 우리 팀 운명이 달렸어요. ibeon gyeyage uri tim unmyeong-i dallyeosseoyo. O destino do nosso time depende deste contrato.

Aqui está o segundo sentido. Não se trata de força sobrenatural, e sim de dar certo ou fechar as portas. A construção -에 운명이 달리다 (-e unmyeong-i dallida) vale decorar inteira: é um molde pronto para usar.

2) Ao recordar o momento que mudou o seu caminho

그때 그 수업 하나가 제 운명을 갈랐어요. geuttae geu sueop hanaga je unmyeong-eul gallasseoyo. Aquela única aula dividiu minha vida em antes e depois.

Usa-se quando um estopim pequeno mudou a direção de uma vida inteira. É uma frase que funciona muito bem numa apresentação pessoal ou numa entrevista.

3) Rebatendo quem diz “você já nasceu com essa sina mesmo”

저는 제 운명을 스스로 개척하고 싶어요. jeoneun je unmyeong-eul seuseuro gaecheokhago sipeoyo. Eu quero abrir o meu próprio destino.

É a frase que vira uma conversa inclinada para a resignação de volta para o lado da vontade. Mostra bem como a direção inteira da palavra muda no instante em que 개척하다 (gaecheokhada) entra em cena.

Registros formal e informal, e expressões parecidas

A palavra em si é um substantivo, então não tem grau de respeito próprio: é o verbo que vem depois que define a temperatura. No registro informal, 운명이야 (unmyeong-iya); no polido corrente, 운명이에요 (unmyeong-ieyo); no formal, 운명입니다 (unmyeong-imnida). Em reuniões e apresentações, o formato mais frequente é “-에 운명이 달려 있습니다” (-e unmyeong-i dallyeo itseumnida).

Comparada com as palavras que parecem próximas, a diferença fica evidente.

ExpressãoTemperatura e intensidadeOnde se usa
운명 (unmyeong)Pesada e neutra; pressupõe algo já determinadoEm qualquer lugar. A sério ou de brincadeira
팔자 (palja)Resignação e autoironia; coloquial e um pouco mais baixaAo desabafar entre amigos da mesma idade ou em família. Comentar o 팔자 alheio é grosseiro
인연 (inyeon)Calorosa e suaveSó entre pessoas. Não se usa para organizações nem para jogos
숙명 (sungmyeong)A mais pesada de todas; enfatiza o inevitávelLíngua escrita e discursos. Numa conversa do dia a dia soa exagerada

A confusão mais comum é com 인연 (inyeon). 인연 aponta para o fio caloroso do encontro em si; 운명 aponta para a direção da vida inteira, encontro incluído. Por isso “좋은 인연이었어요” (jo-eun inyeon-ieosseoyo), “foi um bom encontro”, soa bonito até numa despedida — mas troque a palavra por 운명 no mesmo lugar e a frase fica pesada de repente.

Contexto cultural — duas sílabas, dois hanja

A palavra vem do sino-coreano 運命. 運 significa girar, mover-se, transportar; 命 é a vida e também o mandato que o céu concede. A imagem é a de uma vida que gira — ou seja, uma parcela que escorre sem que a pessoa consiga segurá-la. É daí que vem o peso discreto que essa palavra sempre tem em coreano.

Há um par que exige atenção. Existe também 殞命, de som idêntico, que significa a vida se esgotar; por isso 운명하다 (unmyeonghada) quer dizer “falecer”. Quando num hospital se diz “오늘 새벽에 운명하셨습니다” (oneul saebyeoge unmyeonghasyeotseumnida), trata-se da forma respeitosa de comunicar uma morte. Apesar da aparência idêntica, 運命 não gera esse uso verbal — então o erro a evitar a todo custo é usar 운명하다 no lugar de 운명적이다 (unmyeongjeok-ida), “ser coisa do destino”.

Também há um motivo para os doramas coreanos não largarem essa palavra. Uma das gramáticas mais antigas do romance coreano é justamente a repetição das coincidências. A criança com quem o protagonista cruzou na infância reaparece vinte anos depois como sua chefe; o objeto perdido volta nas mãos da outra pessoa. Nesse instante, o público está treinado para pensar nessas duas sílabas antes mesmo dos personagens. Por isso, nos diálogos, a palavra é economizada. Ninguém diz em voz alta aquilo que todos já sabem — até que a personagem que não aguenta mais finalmente deixa escapar, e a cena explode.

우리가 만난 건 우연이 아니야. — da série Goblin (도깨비, tvN, 2016)

“O nosso encontro não foi coincidência.”

A palavra de hoje não aparece nessa fala. Ainda assim, o público coreano lê ali as mesmas duas sílabas. É uma frase que sabe que deixar o espaço vazio, sem dizer, soa mais forte do que dizer. E isso é uma boa dica também para quem estuda: quanto mais você usa essa palavra, mais fraca ela fica; quanto mais você a guarda, mais ela vale quando enfim aparece.

Quiz de hoje

Alguém veio para a Coreia pensando em ficar só um ano, acabou se matriculando num curso de idiomas e, por causa dessa decisão, mora em Seul há quinze anos. Ao recordar aquela época, qual das frases soa mais natural?

  1. 그때 그 학원 등록이 제 운명을 갈랐어요.
  2. 그때 그 학원 등록이 제 운명을 같이했어요.
  3. 그때 그 학원 등록이 제 운명을 거역했어요.
Ver a resposta

A resposta é a 1. Como se trata de uma decisão pequena que partiu a direção da vida em duas, 가르다 (gareuda) encaixa com precisão. Na 2, 운명을 같이하다 significa dividir o desfecho até o fim, e por isso exige uma pessoa ou uma organização como objeto da relação. Na 3, 거역하다 (geoyeokhada) significa contrariar um caminho já traçado, o que não combina com o ato de fazer uma matrícula.

As definições e exemplos provêm do Dicionário Básico de Coreano do Instituto Nacional da Língua Coreana (krdict.korean.go.kr); essa parte, incluindo nossas traduções, é distribuída sob a licença CC BY-SA 2.0 KR.

Tradução própria: o dicionário oficial não oferece português, portanto as traduções para o português são nossas.