반존대 (banjondae) — nem informal, nem formal: aquela temperatura ambígua
반존대
반존대 (banjondae) é aquele jeito de falar que mistura o registro de respeito (존댓말) com o registro informal (반말) e acaba não elevando nem rebaixando completamente o interlocutor: uma fala que honra só pela metade. Existe um momento que os estrangeiros com anos de Coreia descrevem em coro. Na barraca de frutas do mercado, o dono diz para a pessoa da frente “이거 맛있어요, 좀 깎아 드릴게요” (isso aqui é gostoso, faço um descontinho — tudo na forma polida) e, quando chega a sua vez, corta as terminações: “이거 맛있어. 싸. 두 개 줄게” (isso é gostoso. É barato. Te dou dois). Chamar de grosseria é difícil, porque o rosto dele é carinhoso demais; chamar de proximidade também não dá, porque a diferença entre o que ele falou com a pessoa da frente e o que falou comigo é evidente. O nome colado nesse lugar ambíguo é exatamente 반존대.
O 반존대 aparece basicamente com três rostos. Primeiro, quando a pessoa tira e põe o ‘-요’. Ela oscila entre “어디 가세요?” e “어디 가?” (você vai aonde?, na versão polida e na informal) e ainda embaça a terminação com um “어디 가시게…”. Segundo, quando o registro formal e o informal vão e voltam dentro da mesma conversa. A pessoa responde “네, 알겠습니다” (sim, entendido) e, logo em seguida, emenda um “근데 그거 언제 끝나?” (mas aquilo termina quando?). Terceiro, quando a frase simplesmente não é concluída: “그건 좀…” (isso é meio…), “아, 저는 괜찮은데…” (ah, por mim tudo bem, mas…), deixando o final da fala boiando no ar. Os três rostos têm a mesma causa: rebaixar o outro parece falta de educação, elevá-lo parece criar distância — e então quem fala adia a decisão.
Por isso o 반존대 vira um jeito de falar que atende à comodidade de quem fala e joga a conta no colo de quem ouve. Quem escuta precisa recalcular, frase a frase: “essa pessoa está me tratando com intimidade ou está me subestimando?”. Quando aparece em situações em que o poder desce de cima para baixo — o cliente com o jovem do balcão, o chefe com o novato, o coreano com o estrangeiro —, costuma ser lido como falta de respeito. Por outro lado, também existe como uma fase de transição natural entre duas pessoas que estão ficando próximas. Duas pessoas que só usavam o registro formal começam a soltar uma ou outra frase informal até chegarem ao “우리 그냥 말 놓을까요?” (e se a gente passasse a se falar informalmente?) — a fala desses poucos dias é o 반존대. Ou seja: o 반존대 que caminha para um acordo é natural; o 반존대 em que só um lado desce, sem acordo, é desagradável.
Vendo em uma conversa real
Situação: os dois voltam de compras na feira do bairro. Emily está emburrada por causa do que acabou de acontecer na barraca de frutas.
Emily: 아저씨가 나한테만 계속 “이거 맛있어, 싸게 줄게” 이러시더라. O dono da barraca ficou me dizendo “isso é gostoso, faço barato pra você” em fala informal — só comigo.
Jun-kyung: 아, 반존대. 나한텐 “맛있어요” 하시던데. Ah, meio-respeito. Comigo ele usou a terminação polida.
Emily: 그치? 내가 외국인이라 그러시는 것 같아서 좀 그래. Né? Acho que é porque sou estrangeira, e isso me incomoda um pouco.
Jun-kyung: 악의는 없으실 거야. 외국인한테는 쉽게 말해야 한다고 생각하시는 거지. Ele não fez por mal. Só acha que com estrangeiro tem que falar de um jeito mais simples.
Emily: 근데 반존대가 제일 애매해. 친한 것도 아니고 존중받는 것도 아니고. Mas o meio-respeito é a coisa mais ambígua que existe. Não é intimidade nem é respeito.
Jun-kyung: 맞아. 손님이 어린 알바생한테 그러는 것도 딱 그래서 문제야. Verdade. É exatamente por isso que é um problema quando clientes fazem isso com os jovens que trabalham meio período.
Assim soa estranho
✗ (para o atendente da loja de conveniência) 이거 얼마야? 봉투 하나 줘. (igeo eolmaya? bongtu hana jwo.) — Quanto é isso? Me dá uma sacola. ✓ (para o atendente da loja de conveniência) 이거 얼마예요? 봉투 하나 주세요. (igeo eolmayeyo? bongtu hana juseyo.) — Quanto custa isso? Uma sacola, por favor. → No instante em que você baixa a terminação só porque o outro parece mais novo, aquilo já é 반존대. Não é a idade, é a relação que define o registro. Entre pessoas que estão se vendo pela primeira vez, o padrão é usar ‘-요’, independentemente da idade.
✗ (em um primeiro encontro) 처음 뵙겠습니다. 저는 편하게 반존대로 말씀드릴게요. (cheoeum boepgetseumnida. jeoneun pyeonhage banjondaero malsseumdeurilgeyo.) — Muito prazer. Vou falar com você em meio-respeito, para ficar mais à vontade. ✓ (em um primeiro encontro) 처음 뵙겠습니다. 편하게 말씀 낮추셔도 됩니다. (cheoeum boepgetseumnida. pyeonhage malsseum natchusyeodo doemnida.) — Muito prazer. Fique à vontade para falar comigo de forma informal. → O 반존대 não é um registro que alguém anuncia que vai adotar. Ele se parece muito mais com um nome que se dá depois que quem ouve sentiu o desconforto. Como a palavra tem “반(半)”, é fácil entendê-la como “uma fala mais ou menos educada”, mas a sensação real é outra: “uma fala com metade da educação”.
Exemplos por situação
1) Ao desabafar com um amigo depois do turno no trabalho de meio período
손님이 자꾸 반존대를 하셔서 좀 불편했어요. (sonnimi jakku banjondaereul hasyeoseo jom bulpyeonhaesseoyo.) O cliente ficava falando comigo em meio-respeito, e isso me deixou meio desconfortável.
Quem já trabalhou em cafeteria ou loja de conveniência passa por isso pelo menos uma vez. Se a pessoa falasse abertamente em 반말, dava até para reclamar; mas quando ela fica indo e voltando — “이거 하나 주세요… 아, 이건 얼마야?” (me dá um desses, por favor… ah, e este aqui, quanto é?) —, é difícil até achar o momento de se irritar. A palavra que resume esse sufoco em um único termo é 반존대.
2) Antes de acertar o registro com um colega de idade indefinida
우리 반존대 말고 그냥 편하게 말 놓을까요? (uri banjondae malgo geunyang pyeonhage mal noeulkkayo?) Em vez desse meio-respeito, que tal a gente passar a se falar informalmente?
É a frase que alguém finalmente puxa depois de umas duas semanas de terminações embaçadas dos dois lados. Aqui o 반존대 não é uma acusação: funciona como uma etiqueta para o estado atual. É um jeito elegante de dizer “nosso jeito de falar está meio esquisito agora, né?”. Vale lembrar também que quem costuma fazer essa pergunta é a pessoa mais velha ou a que entrou antes na empresa.
3) Quando o estudante quer checar o próprio jeito de falar
저 혹시 지금 반존대하고 있었나요? (jeo hoksi jigeum banjondaehago itseonnayo?) Será que eu estava falando em meio-respeito agora há pouco?
É algo que, curiosamente, acontece mais à medida que você se solta no coreano. Quando as expressões informais aprendidas nos doramas e o 해요체 aprendido no livro didático se misturam dentro da mesma frase, você pode não perceber — mas quem ouve percebe. Essa frase é bem mais precisa do que “desculpa, como foi meu jeito de falar?”, e deixa o outro à vontade para corrigir você.
Expressões parecidas com 존댓말 e 반말
| Expressão | Temperatura · intensidade | Onde aparece |
|---|---|---|
| 반존대 (banjondae) | Meio-termo. Tende a deixar quem ouve desconfortável | Sai de forma inconsciente quando idade e hierarquia são ambíguas. Não é um registro para adotar de propósito |
| 해요체 (haeyoche) | Cortesia suave | O padrão do dia a dia. Lojas, vizinhos, primeiros encontros |
| 하십시오체 (hasipsioche) | Cortesia formal | Reuniões, apresentações, atendimento ao cliente, documentos oficiais |
| 반말 (banmal) | Próximo e à vontade | Amigos e pessoas mais novas. Só depois de um acordo mútuo |
| 말을 놓다 (mareul nota) | Neutro (indica a ação, não o registro) | Ao propor ou autorizar a passagem para o 반말 |
O par que mais confunde é 반존대 e 반말. O 반말 tem identidade clara: entre amigos, soa afetuoso; com desconhecidos, soa grosseiro. Já o 반존대 tem como característica justamente a identidade turva. Por isso, a estratégia que o estudante realmente precisa é uma só: na dúvida sobre para que lado ir, ponha o ‘-요’ sem pensar duas vezes. Quase nunca alguém sai perdendo por ter elevado demais; perder por ter descido pela metade é coisa que acontece todo dia.
Contexto cultural — a fala que honra só pela metade
반존대 é uma palavra formada pela junção do sino-coreano 반(半, metade) com 존대(尊待, tratar com deferência). Ao pé da letra, “meia deferência”. A formação é tão transparente que dá para adivinhar o sentido mesmo sem conhecer a palavra, mas, no uso real, o centro de gravidade não está no “deferência” e sim no “meia”. Quando as pessoas puxam esse termo, quase sempre é para apontar um problema, não para elogiar.
Essa palavra é necessária porque o coreano é uma língua que declara relações pelo jeito de falar. Em português, você pode usar a mesma frase com alguém que acabou de conhecer e com um amigo de dez anos; em coreano, no instante em que você abre a frase, já precisa explicitar a distância entre as duas pessoas. Por isso os coreanos negociam isso em voz alta, de verdade: “말 놓으세요” (pode falar comigo informalmente), “아니에요, 그래도 편하실 대로 하세요” (imagina, faça como for mais confortável para você). Quando alguém pula esse procedimento de negociação e desce o registro sozinho, o que sobra é exatamente o 반존대.
É por isso, também, que os doramas sobre o mundo do trabalho tocam nesse ponto com frequência. Em obras que retratam a vida corporativa, repetem-se cenas em que o funcionário novato tenta medir a própria posição diante do jeito ambíguo de falar do chefe; nos dramas de família, é figurinha carimbada a cena em que o genro ou a nora sofre para acertar a altura do registro com a família do cônjuge. Basta uma terminação mudar, sem uma linha de diálogo explicativa, para o público perceber como a relação entre os dois se transformou. É justamente essa a área com que o estudante de coreano continua lutando até o fim, mesmo depois de dar conta de toda a gramática.
Por último, uma observação bem prática para quem estuda coreano vindo de fora. Ouvir 반존대 na Coreia sendo estrangeiro é mais comum do que se imagina. Na maioria das vezes não há má intenção: vem de um cuidado do tipo “preciso falar de um jeito mais fácil para ele entender”. Mas se o resultado desse cuidado soa como ausência de respeito, continua sendo um hábito a corrigir. Nesses momentos, um simples “저 한국말 괜찮아요, 편하게 존댓말로 해 주셔도 돼요” (meu coreano é ok, pode falar comigo na forma polida sem problema), dito com um sorriso, costuma mudar o registro ali mesmo. Só de conhecer essa palavra, você já ganha força para dizer essa frase.
Quiz de hoje
Você trocou de empresa e está há três semanas trabalhando ao lado de um colega. Vocês parecem ter idades parecidas e já se soltaram um com o outro, mas os dois ficam oscilando: dizem “네, 알겠어요” (sim, entendi) e logo emendam “근데 그거 언제 끝나?” (mas aquilo termina quando?). Qual é a frase mais natural para resolver essa situação?
- 저한테 반말하지 마세요. (jeohante banmalhaji maseyo.) — Não fale comigo de forma informal.
- 우리 계속 반존대하는 것 같은데, 그냥 말 놓을까요? (uri gyesok banjondaehaneun geot gateunde, geunyang mal noeulkkayo?) — Parece que a gente está nesse meio-respeito o tempo todo; que tal passarmos ao informal?
- 앞으로 하십시오체로 말씀해 주시겠습니까? (apeuro hasipsiochero malsseumhae jusigetseumnikka?) — A partir de agora, poderia falar comigo no registro formal?
Resposta: opção 2
A opção 1 rotula o outro como uma pessoa grosseira e, para a situação atual, é forte demais. A opção 3 equivale a devolver ao protocolo oficial uma relação que já ficou próxima, o que soa estranho. A opção 2 nomeia com precisão o estado atual — 반존대 — e propõe o próximo passo. É a solução mais coreana que existe: sem culpar ninguém, ela desloca o jeito de falar dos dois para o terreno do acordo.
As definições e exemplos provêm do Dicionário Básico de Coreano do Instituto Nacional da Língua Coreana (krdict.korean.go.kr); essa parte, incluindo nossas traduções, é distribuída sob a licença CC BY-SA 2.0 KR.
Tradução própria: o dicionário oficial não oferece português, portanto as traduções para o português são nossas.