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강릉 (Gangneung) — a duas horas de Seul, e por que o coreano diz só '나 내일 강릉'

강릉

강릉 (Gangneung) é o nome de uma cidade no litoral leste da Coreia do Sul. No papel, a denominação oficial é Gangneung-si, na Província Autônoma Especial de Gangwon — mas, entre os coreanos, essas duas sílabas funcionam bem menos como divisão administrativa e bem mais como ‘o lugar aonde a gente vai ver o mar’.

Sexta-feira à tarde, alguém pega a mochila no escritório e diz: ‘나 내일 강릉.’ (na naeil Gangneung.) Não tem verbo. Não tem objeto nem partícula. E, ainda assim, todo mundo em volta entende — e a maioria faz cara de inveja. É uma frase que jamais aparece num livro didático de coreano, mas no coreano de verdade isso acontece o tempo todo: um único nome de lugar toma o lugar da frase inteira. O que vamos ver hoje não é o significado da palavra, e sim o que essas duas sílabas de fato fazem dentro de uma conversa coreana.

Começando pelo som. Este é o topônimo que praticamente 100% de quem estuda coreano erra na primeira vez. As letras escritas são ‘강’ e ‘릉’, mas a pronúncia real é [강능]. O ㄹ que vem depois do batchim ㅇ vira ㄴ — exatamente o mesmo fenômeno que faz 종로 soar como [종노]. Por isso a romanização também é Gangneung, e não Gangreung. Não é que a romanização esteja estranha: ela está simplesmente transcrevendo o som real.

E por que logo essa cidade? Em 2017, com a inauguração do trem de alta velocidade ligando Seul a Gangneung, passou a ser possível sair da Estação de Seul e chegar ao mar do Leste em cerca de duas horas. Até então, Gangneung era ‘aquele lugar aonde você vai quando decide de verdade’; hoje virou destino bate-volta — sai de manhã, olha o mar, come sundubu, toma um café e volta à noite. É daí que vem a possibilidade de uma fala tão curta quanto ‘나 내일 강릉’. Nessas duas sílabas já está tudo: ‘não é longe’, ‘vou descansar’, ‘tem mar’.

Vendo em uma conversa real

Situação: sábado de manhã, saguão da Estação de Seul. Faltam 20 minutos para a partida e os dois descem para a plataforma com o gimbap que acabaram de comprar.

Jun-kyung: 야, 김밥 두 줄이면 되지? 자리에서 먹게. Ei, dois rolinhos de gimbap dão conta, né? Pra gente comer no assento.

Emily: 어. 근데 강릉까지 진짜 두 시간이면 가? Dá. Mas até Gangneung leva mesmo só duas horas?

Jun-kyung: 응, 기차 생기고 나서는 그래. 예전엔 버스 타고 한참 갔지. Leva, depois que o trem foi inaugurado. Antes a gente ia de ônibus e demorava uma eternidade.

Emily: 헐, 그럼 아침에 갔다가 저녁에 와도 되겠네. Nossa, então dá pra ir de manhã e voltar à noite.

Jun-kyung: 그래서 요즘 강릉은 당일치기로 많이 가. 순두부 먹고 커피만 마시고 와도 남는 장사야. Por isso hoje em dia muita gente faz Gangneung em um dia só. Mesmo que seja só comer sundubu e tomar um café, já vale a viagem.

Emily: 콜. 난 이번엔 바다 앞에서 아무것도 안 할 거야. Fechado. Dessa vez eu vou ficar em frente ao mar sem fazer absolutamente nada.

Assim fica estranho

Nome de lugar não é palavra que se ajusta conforme o interlocutor, então não há risco de soar grosseiro. Em compensação, há dois mal-entendidos pelos quais quase todo estudante passa pelo menos uma vez.

✗ 저는 다음 주에 강릉도에 가요. ✓ 저는 다음 주에 강릉에 가요. (jeoneun da-eum jue Gangneunge gayo.) → É o erro que nasce do hábito de grudar ‘-도’ no fim, como em 제주도 e 울릉도. Só que ali o ‘도’ significa ilha (島) ou província (道), e Gangneung não é ilha nem província: é uma cidade (市). Para falar no nível de província, o certo é ‘강원도’ — e aí você está apontando para uma área bem mais ampla, que inclui Gangneung.

✗ [강·릉]에 가요. (letra por letra, gang-reung) ✓ [강능]에 가요. (Gangneung) → É o exemplo clássico de topônimo em que escrita e som não batem. Se você pronunciar como está escrito, o coreano até entende, mas na hora identifica como sotaque estrangeiro. Na hora de comprar a passagem de trem ou dizer o destino no táxi, falar [강능] aumenta muito a taxa de sucesso.

Exemplos por situação

1. Ao falar dos planos de fim de semana — é o uso mais comum de todos

이번 주말에 강릉 가려고요. (ibeon jumare Gangneung garyeogoyo.)

Situação: contar os planos do fim de semana para um colega ou amigo. Em coreano ninguém fala comprido, do tipo ‘강릉에 여행을 갈 예정입니다’. Soa muito mais natural cortar até a partícula ‘에’ e dizer ‘강릉 가려고요’. Ao ouvir essa frase, é quase certo que a outra pessoa devolva um ‘바다 보러 가요?’ (‘vai ver o mar?’).

2. Ao falar da terra natal ou de onde você é

강릉 사람이에요. 바다 앞에서 자랐어요. (jeo Gangneung saramieyo. bada apeseo jarasseoyo.)

Situação: dizer de onde você é num primeiro encontro. ‘강릉 사람이에요’ é mais falado, mais de boca, do que ‘강릉 출신이에요’. Na Coreia, quando alguém diz que é de uma cidade litorânea, a conversa costuma escorregar na hora para ‘그럼 회 잘 먹겠네요’ (‘então você deve mandar bem no peixe cru, né?’).

3. Ao perguntar o tempo de viagem — o mais prático para quem viaja

서울역에서 강릉까지 얼마나 걸려요? (Seoullyeogeseo Gangneungkkaji eolmana geollyeoyo?)

Frase para usar na estação ou no balcão de informações. ‘에서 ~까지’ é o par básico que amarra ponto de partida e ponto de chegada, então vale decorar o bloco inteiro: depois é só trocar o nome do lugar e você usa isso pela vida toda. A propósito, saindo da Estação de Seul, a resposta que volta é ‘mais ou menos duas horas’.

Formal, informal e expressões parecidas

O nome do lugar em si não tem grau de formalidade. A diferença entre formal e informal não está no topônimo, e sim no fim da frase. Para alguém mais velho ou superior: ‘강릉 가세요?’ (Gangneung gaseyo?). Para um amigo: ‘강릉 가?’ (Gangneung ga?). As duas sílabas ficam iguais e só o que vem depois muda — o que, no fundo, facilita bastante a vida de quem está aprendendo.

O que confunde de verdade não é a formalidade: é a escala. As quatro palavras abaixo aparecem lado a lado nas conversas dos coreanos o tempo todo, mas apontam para tamanhos completamente diferentes.

ExpressãoTom · intensidadeOnde se usa
강릉 (Gangneung)Aponta o dedo para uma cidade específica. Dá a sensação de plano já fechadoEm qualquer conversa sobre viagem, origem ou transporte
강원도 (Gangwon-do)Palavra ampla, meio genérica. Dá a sensação de nada decidido aindaAo falar da região inteira. ‘강원도 쪽으로 가려고’ (‘tô pensando em ir pros lados de Gangwon’)
영동 (Yeongdong)Termo geográfico e meteorológico, por isso soa duroPrevisão do tempo e jornal. Toda a faixa litorânea a leste do Daegwallyeong
동해 (Donghae)Ambíguo: é nome de mar e nome de cidadeNa maioria das vezes significa o mar. Para a cidade, diz-se ‘동해시’

A última linha é a armadilha principal. Quando alguém diz ‘동해 갈래?’, em geral quer dizer ‘vamos ao mar do Leste?’, e não ‘vamos à cidade de Donghae?’. E o destino mais representativo para quem vai ver esse mar do Leste é justamente Gangneung.

Contexto cultural — entre o mar e o café

O próprio nome já desenha o relevo. Em caracteres chineses, 강릉 é 江陵: rio (江) e colina (陵). No período de Goguryeo, chamava-se Haseulla; na Silla Unificada, Myeongju; e foi na dinastia Goryeo que o nome atual se fixou. Ou seja, é um nome que atravessou mais de mil anos.

O que faz a Gangneung de hoje são, basicamente, três coisas. A primeira é o café. A região da praia de Anmok, com uma fileira de cafés voltados para o mar, é conhecida como ‘Rua do Café’, e todo ano acontece um festival de café por lá. Para o coreano, ‘강릉 커피’ (‘café de Gangneung’) funciona quase como um nome próprio. A segunda é o 초당순두부, o sundubu de Chodang. Diz-se que o tofu macio feito no bairro de Chodang-dong é temperado com água do mar em vez de sal, e há gente que sai de madrugada de propósito só para comê-lo no café da manhã. A terceira é o nascer do sol. Jeongdongjin recebeu esse nome por ficar exatamente a leste de Gwanghwamun, em Seul, e virou ponto nacional de nascer do sol depois de servir de cenário para o drama 《모래시계》 (Moraesigye, ‘A Ampulheta’) (SBS, 1995).

Já que estamos falando de drama: aquela cena da mocinha em pé no quebra-mar à beira-mar, segurando flores de trigo-sarraceno, e o mocinho que surge do nada — a cena que qualquer pessoa que já tenha visto um pouquinho de drama coreano consegue lembrar — também foi filmada em Jumunjin, em Gangneung. Depois de 《도깨비》 (Dokkaebi, ‘Goblin’) (tvN, 2016), aquele quebra-mar virou um lugar onde as pessoas fazem fila para tirar foto. Não é preciso reproduzir nenhuma fala: para um coreano, bastam as cinco sílabas ‘주문진 방파제’ para a cena rodar de novo na cabeça.

Há também rostos antigos. Ojukheon é a casa onde viveu Sin Saimdang e onde nasceu Yulgok Yi I — ou seja, as figuras estampadas nas notas coreanas de cinquenta mil e de cinco mil wones saíram as duas desta mesma casa. E o Danoje de Gangneung, inscrito como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, continua acontecendo em grande estilo todos os anos. Foi em Gangneung, também, que se disputaram as provas no gelo dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, em 2018.

Por último, o jeito de falar. Esta região, a leste do Daegwallyeong, tem uma entonação bem diferente da de Seul. A marca mais conhecida é o ‘~드래요’ no fim das frases, que praticamente nunca falta quando dramas ou programas de variedades querem retratar alguém de Gangwon-do. Se você ouvir essa terminação durante a viagem, isso por si só já quer dizer que você chegou a Gangneung.

Quiz de hoje

Qual das frases abaixo é a mais natural em coreano?

  1. 저는 다음 주에 강릉도에 가요.
  2. 저는 다음 주에 강릉에 가요.
  3. 저는 다음 주에 강릉시도에 가요.

Resposta: 2

Gangneung não é ilha (島) nem província (道): é cidade (市) — portanto não se acrescenta ‘-도’. É o erro mais frequente entre estudantes que se acostumaram com o ‘도’ de 제주도 e 울릉도. Se você quiser falar da região ampla, o certo é ‘강원도에 가요’; se quiser apontar o dedo para uma cidade dentro dela, é ‘강릉에 가요’. E, na hora de ler em voz alta, não esqueça: é [강능].

Tradução própria: o dicionário oficial não oferece português, portanto as traduções para o português são nossas.