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짜파구리 (jjapaguri) — dois pacotes na mesma panela, e a mistura ganha nome

짜파구리

짜파구리 (jjapaguri) é o nome de um prato coreano feito com miojo instantâneo: dois pacotes cozidos juntos numa única panela — o “짜파게티 (Chapagetti)”, um miojo de molho jjajang, e o “너구리 (Neoguri)”, um miojo apimentado de frutos do mar. A palavra nasceu do corte e da colagem dos dois nomes (o começo de um, o fim do outro), então ela é ao mesmo tempo o nome de um prato e o nome de uma brincadeira: a de misturar as coisas.

No dia a dia coreano, os lugares onde essa palavra aparece são quase sempre os mesmos: em frente à prateleira de miojos da loja de conveniência às onze da noite, no quarto alugado depois da última prova, numa tarde de sábado em que um amigo apareceu de surpresa. Quando alguém pergunta “o que a gente come hoje?” e a resposta é “vamos de 짜파구리 (jjapaguri)”, isso não é simplesmente escolher um prato: é mais uma proposta de “hoje vamos comer qualquer coisa, mas de um jeito divertido”. Afinal, não é uma comida que se pede num restaurante, e sim uma comida que duas pessoas fazem na cozinha, com uma panela só.

O próprio modo de preparo explica a nuance da palavra. Cozinham-se os dois miojos juntos, escorre-se quase toda a água, acrescentam-se o pó de jjajang e o óleo do Chapagetti e apenas metade do tempero do Neoguri, e mistura-se tudo. O doce do jjajang se sobrepõe ao picante do caldo de frutos do mar e nasce um sabor que não é nem um nem outro — e esse ponto “nem um nem outro” é exatamente a parte de que as pessoas gostam. Por isso, ao falar de 짜파구리 (jjapaguri), os coreanos usam com mais frequência a palavra “combinação” (조합, johap) do que “receita” (레시피, resipi).

Do ponto de vista gramatical é um substantivo, mas, na prática, quase nunca anda sozinho: vem quase sempre acompanhado de um verbo. Os três mais comuns são 짜파구리 하다 (jjapaguri hada), 짜파구리 끓이다 (jjapaguri kkeurida) e 짜파구리 해 먹다 (jjapaguri hae meokda). Desses, “짜파구리 하다” pode parecer um pouco esquisito gramaticalmente, mas soa completamente natural para quem fala coreano. É o mesmo velho hábito de língua que aparece em “라면 하다 (ramyeon hada)” ou “삼겹살 하다 (samgyeopsal hada)”: colar o verbo 하다 (hada) a um nome de comida para dizer “vamos fazer isso e comer”.

Vendo numa conversa real

Situação: onze da noite, em frente à prateleira de miojos da loja de conveniência do bairro. Escolhendo o que comer de madrugada.

Jun-kyung: 야, 뭐 먹을래? 그냥 신라면 두 개 살까? Ei, o que você quer comer? Vamos pegar dois Shin Ramyun mesmo?

Emily: 에이, 재미없어. 우리 짜파구리 하자. Ah, que sem graça. Vamos fazer jjapaguri.

Jun-kyung: 오케이. 그럼 짜파게티랑 너구리 하나씩 집어. Beleza. Então pega um Chapagetti e um Neoguri.

Emily: 근데 너구리 스프 다 넣으면 너무 짜지 않아? Mas não fica salgado demais se colocar o pacote de tempero inteiro do Neoguri?

Jun-kyung: 반만 넣으면 돼. 나 짜파구리 끓이는 거 진짜 잘해. É só colocar metade. Eu faço jjapaguri muito bem, viu.

Emily: 말은. 지난번엔 물 안 버려서 죽 됐잖아. Sei… Da última vez você não escorreu a água e aquilo virou um mingau.

Assim soa estranho

✗ (num restaurante coreano, para o garçom) 여기 짜파구리 하나 주세요. (yeogi jjapaguri hana juseyo) ✓ (para um amigo) 이따 마트 들러서 짜파구리 해 먹자. (itta mateu deulleoseo jjapaguri hae meokja) → 짜파구리 (jjapaguri) não é uma palavra de cardápio, é uma palavra de cozinha. Como se trata de comprar dois pacotes de miojo e preparar em casa, se você pedir isso num restaurante comum o garçom vai ficar sem saber o que responder. (Depois do sucesso do filme, surgiram versões em copinho e até lugares que vendem o prato, mas o padrão continua sendo “fazer em casa”.)

✗ 우리 오늘 저녁에 람돈 먹을까? (uri oneul jeonyeoge ramdon meogeulkka?) ✓ 우리 오늘 저녁에 짜파구리 먹을까? (uri oneul jeonyeoge jjapaguri meogeulkka?) → O termo “ram-don (람돈)”, tão difundido no mundo anglófono, foi criado pela tradutora nas legendas em inglês do filme Parasita, para o público estrangeiro. É a junção de ramyeon e udon, e o sentido se entende bem — só que, na Coreia, ninguém vai saber do que você está falando. Com coreanos, é 짜파구리 (jjapaguri) e ponto.

Exemplos de uso por situação

1. Quando um amigo aparece de surpresa em casa (linguagem informal)

오늘 저녁은 그냥 짜파구리나 해 먹자. (oneul jeonyeogeun geunyang jjapagurina hae meokja) Vamos fazer um jjapaguri mesmo hoje no jantar.

A partícula ‘~나’ acrescenta a ideia de “não é nada de mais, mas vamos nessa”. É um sinal de “sem frescura, vamos comer numa boa”, por isso aparece muito entre pessoas próximas. Cuidado: numa ocasião em que você está recebendo visitas mais formais, pode soar como falta de capricho.

2. Falando do fim de semana durante o almoço no trabalho (linguagem formal)

저 어제 처음으로 짜파구리 끓여 봤는데 완전 망했어요. (jeo eoje cheoeumeuro jjapaguri kkeullyeo bwanneunde wanjeon manghaesseoyo) Ontem eu tentei fazer jjapaguri pela primeira vez e deu tudo errado.

짜파구리 (jjapaguri) é um dos poucos pratos em que a história do fracasso vira assunto de conversa. Ter escorrido pouca água, ter colocado o tempero inteiro e ficado salgado demais — praticamente todo coreano se identifica com isso, então, surpreendentemente, é um bom jeito de quebrar o gelo em situações constrangedoras.

3. Fazendo manha com os pais (linguagem informal)

엄마, 오늘 저녁에 짜파구리 해 주면 안 돼? (eomma, oneul jeonyeoge jjapaguri hae jumyeon an dwae?) Mãe, dá para você fazer jjapaguri hoje no jantar?

Ao pé da letra, ‘~해 주면 안 돼?’ é uma pergunta negativa (“não dá para fazer para mim?”), mas na prática é um pedido feito com jeitinho, quase um dengo. Como 짜파구리 (jjapaguri) virou um prato que as crianças adoram, essa frase é ouvidíssima nas casas coreanas.

Formalidade e expressões parecidas

짜파구리 (jjapaguri) não tem forma honorífica própria — é o nome de uma coisa, afinal. O nível de formalidade se decide no verbo que vem depois. Para um amigo, “짜파구리 하자 (jjapaguri haja)”; para alguém mais velho ou superior, “짜파구리 한번 해 보세요 (jjapaguri hanbeon hae boseyo)”; e, numa situação realmente formal, o mais natural é nem trazer a palavra à mesa. Ninguém propõe 짜파구리 num jantar com o presidente da empresa.

Comparar com outros nomes de “comida-combinação” do mesmo naipe deixa o lugar dessa palavra ainda mais claro.

ExpressãoTom / intensidadeOnde se usa
짜파구리 (jjapaguri)Leve e brincalhãoAmigos, família, quarto alugado. Não se usa em refeições formais
라볶이 (rabokki)Leve, mas popularEstá até no cardápio das lanchonetes. Dá para pedir
모디슈머 (modisyumeo)Neutro, tom explicativoMatérias de jornal e textos de marketing. Quase nunca na conversa do dia a dia
비빔면 (bibimmyeon)NeutroEm qualquer lugar. É nome oficial de produto

라볶이 (rabokki) é a junção de 라면 (ramyeon) com 떡볶이 (tteokbokki) mas, diferentemente do 짜파구리, virou item oficial do cardápio das lanchonetes coreanas há muito tempo, então basta pedir. Já 모디슈머 (modisyumeo), de modify + consumer, designa o consumidor que inventa esse tipo de combinação; aparece bastante em jornais e anúncios, só que ninguém diz para um amigo “vamos fazer modisyumeo”. Entender essa diferença ajuda a sentir em que camada da língua o 짜파구리 se encaixa — entre o nome oficial e o apelido, um nome que as pessoas criaram primeiro e as empresas vieram adotar depois.

Contexto cultural — o nome que nasceu de dois pacotes

A origem do nome é, excepcionalmente, transparente: pegou-se o começo de 짜파게티 (Chapagetti), “짜파”, e o fim de 너구리 (Neoguri), “구리”. O curioso é que o próprio nome “짜파게티” já é uma palavra composta: junta o “짜장” de 짜장면 (jjajangmyeon) com “스파게티” (espaguete). Ou seja, o 짜파구리 é uma composição empilhada sobre outra composição. É um caso em dose dupla do método preferido do coreano para criar nomes novos — cortar pedaços de duas palavras e colá-los.

O que levou essa combinação a ficar conhecida no país inteiro foi o programa de variedades 《아빠! 어디가?》 (“Pai! Aonde vamos?”), da MBC, em 2013. Depois que uma criança do elenco apareceu na TV misturando os dois miojos, os dois produtos esgotaram lado a lado nos supermercados. Antes disso era só um jeito de comer que cada um preparava caladinho no quartel ou no alojamento estudantil; foi ali que a coisa ganhou nome e virou oficial.

O segundo empurrão veio em 2019, com o filme 《기생충》 (Parasita), de Bong Joon-ho. A dona da casa rica volta de repente e encomenda o 짜파구리 por telefone; a empregada prepara às pressas e coloca por cima uma carne bovina hanu caríssima, do corte contrafilé. Naquela única imagem — carne nobre em cima de um miojo instantâneo barato — cabe, numa panela só, toda a história de classes que o filme queria contar. Com o Oscar, a cena se espalhou pelo mundo e espectadores de vários países começaram a procurar os dois produtos nos supermercados de casa. Foi também nessa época que a fabricante publicou vídeos de preparo em vários idiomas.

Por isso o 짜파구리 tem duas caras para os coreanos. Uma é a cara do lanche de madrugada, feito de qualquer jeito quando bate a fome tarde da noite. A outra é a cara meio orgulhosa de “aquilo que a gente fazia só por fazer virou coisa que o mundo inteiro conhece”. É também por isso que, para quem está aprendendo coreano, conhecer essa palavra destrava conversa: um único nome de comida encosta, de uma vez só, em programa de TV, cinema e prateleira de supermercado.

Quiz de hoje

Uma amiga que veio do Canadá está sentada num restaurante coreano, olhando o cardápio, e diz: “여기 짜파구리 있어요? 없으면 람돈이라도 주문할게요.” (“Vocês têm jjapaguri aqui? Se não tiver, eu peço ram-don mesmo.”) Há dois pontos estranhos nessa fala. Quais são?

Ver a resposta

Primeiro: 짜파구리 não é item de cardápio de restaurante comum, e sim uma comida que se faz em casa misturando dois pacotes de miojo — portanto não dá para pedir num restaurante. Segundo: “람돈 (ram-don)” é um termo criado para as legendas em inglês do filme 《기생충》 (Parasita), então não funciona na Coreia. Uma versão natural seria algo como “우리 이따가 집에 가서 짜파구리 해 먹을까?” (uri ittaga jibe gaseo jjapaguri hae meogeulkka?) — “Que tal a gente ir para casa mais tarde e fazer jjapaguri?”

As definições e exemplos provêm do Dicionário Básico de Coreano do Instituto Nacional da Língua Coreana (krdict.korean.go.kr); essa parte, incluindo nossas traduções, é distribuída sob a licença CC BY-SA 2.0 KR.

Tradução própria: o dicionário oficial não oferece português, portanto as traduções para o português são nossas.